Desde cedo, aprendi com a minha avó “Dadá” sobre a importância de cuidar de nossas coisas, porque antigamente tudo era muito mais difícil de conseguir. Era assim na vida de cada um e na vida do terreiro, com as nossas roupas, itens de uso pessoal e da família toda, mas principalmente, dos objetos sagrados. Logo na minha iniciação, minha mãe Oxum disse que não precisaria que fizessem ferramentas novas para ela, pois havia na casa um abebé e uma adaga que ela usaria. Na verdade, eram as ferramentas da falecida Mãe Madalena (Oxum Tóki), que minha avó tinha guardado. Por isso, eu sempre tive este cuidado, porque este legado faz parte da nossa história e precisa ser tratado com todo o respeito que merece.

O tempo foi passando, o terreiro de Casa-Grande de Mesquita praticamente não abriu mais suas portas depois que Iyá Davina se foi, em 1964. Foi então que recebemos a missão de trazer e acolher o assentamento de Omolu que havia herdado de minha avó. Em agosto de 1967, eu e minha irmã, Ekedi Dininha de Oxóssi, fomos de ônibus até Salvador, para buscar o nosso pai Omolu. Na volta, fomos recebidas com grande alegria em nossa casa, aqui em Ramos, de onde o assentamento só saiu para ir à sua nova morada, em 1968, no Ilê Omolu Oxum, na Marambaia, município de Nova Iguaçu. Ficamos por lá quase cinco anos, até virmos para São Mateus.

Ao longo dos anos, procurei seguir os passos de minha mãe de santo e preservar o nosso patrimônio. Eu queria um espaço para contar a nossa história, em um museu de memórias. Mas um objeto em especial me despertou esta ideia, que foi o banco da minha avó, feito em madeira, com uma gaveta para ela guardar o seu cachimbo e o fumo de rolo. Na época, parecia maluquice ter um museu num terreiro, mas graças à dedicação da Ekedi Margarida Menezes e do Ogan Ricardo Freitas, conseguimos o fato inédito de criar, em 1997, um museu em homenagem à Iyá Davina, a partir dos objetos, fotografias e documentos guardados. Somos o primeiro museu do gênero, no estado do Rio de Janeiro, que trata da história do candomblé, a partir da trajetória de nossa família de axé.

Muita coisa aconteceu de lá para cá, até mesmo um temporal atingiu o nosso museu alguns anos atrás, mas nós conseguimos recuperar tudo novamente e, depois de vinte e quatro anos de sua fundação, estamos remontando a exposição permanente do Museu Memorial Iyá Davina, com uma equipe de profissionais coordenada pela Iyá Egbé de nossa casa, Nilce de Iansã e a curadoria do Iyawò de Oxóssi, Marco Antonio Teobaldo.”

Mãe Meninazinha de Oxum

 

Banco de Iyá Davina
(Presente dado pelo ogã Ruy)
Móvel em madeira com gaveta, placa em metal com gravação, assento com revestimento em tecido
55 x 50,5 x 36 cm
Casa-Grande Mesquita (RJ)
1951

Criado em 26 de julho de 1997, o Museu Memorial Iyá Davina tem um papel fundamental para a preservação da própria história, contada a partir dos objetos utilizados no campo litúrgico e no uso rotineiro das atividades dentro do terreiro. Estes artefatos têm tamanha importância pois além de revelarem as suas trajetórias, permitem também manter viva a biografia daqueles que os utilizaram. A partir deste acervo inicial guardado ao longo dos anos por Iyá Davina e, posteriormente, com outros itens agregados por Mãe Meninazinha de Oxum, conseguimos construir uma narrativa sobre uma parte do candomblé da Bahia que se deslocou para o Rio de Janeiro, no começo do século passado: a organização dos primeiros terreiros e rodas de samba na Região Portuária; o deslocamento dos povos de terreiro para a Baixada Fluminense; e a formação destes núcleos de resistência.

É importante destacar a ação visionária de Mãe Meninazinha de Oxum quando fundou o Museu Memorial em homenagem à sua avó biológica, tornando-se referência para outros terreiros, que despertaram para a importância da história que podem contar as “nossas coisas” (como ela mesma costuma dizer). Intuitivamente, ela estava construindo a sua idéia dentro do conceito de uma museologia social. Atualmente, existe uma infinidade de iniciativas similares em todo o Brasil, que evitam o apagamento da memória do nosso povo e contribuem para que nossas histórias não sejam contadas de forma distorcida por outras pessoas.

Na exposição permanente do Museu Memorial Iyá Davina, cada item exibido tem uma história e vários personagens que fizeram parte dela. São objetos sagrados importantes como a espada de Ogunjá, de Pai Procópio; o xaxará de Omolu, de Iyá Davina; e outros objetos emblemáticos, como a porta original do quarto de Oxum, dos tempos da Marambaia. A partir de alguns álbuns de fotografias antigas, formamos um acervo iconográfico que vem sendo digitalizado e restaurado, para possibilitar o acesso deste conteúdo às futuras gerações. O local onde originalmente funcionava o museu foi transformado em um espaço destinado à reserva técnica, no qual são guardados todos os objetos inventariados e que não estão na exposição permanente.

Xere de Xango
(herança de Casa-Grande Mesquita)
Metal em policromia com gravações
9 x 32 x 9 cm
Terreiro de João Alabá (RJ)
Final do século XIX

Abebé da Oxum de Tia Esmeralda
Metal
29 x 26 x 0,4 cm
Casa Grande – Mesquita (RJ)
1937

Tradicionalmente, os terreiros de candomblé exibem nas paredes os retratos de seus mais velhos evocando suas histórias, o que nos inspirou a criar uma exposição que proporciona ao seu visitante o conhecimento de nossas raízes, instalada dentro do barracão do terreiro, de modo a permitir que o acervo seja visto com maior frequência e tenha o seu acesso facilitado. Mãe Meninazinha de Oxum se coloca mais uma vez na posição de vanguarda, contribuindo para o processo de descolonização de museus, ao converter o espaço sagrado dos orixás, em ambiente de preservação da memória do seu povo.

Marco Antonio Teobaldo
Iyawò de Oxóssi e curador

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